quinta-feira, 30 de setembro de 2010

"O silêncio dos intelectuais"- Sérgio Paulo Rouanet

"...é preciso distinguir entre mudez - desqualificação permanente - e silêncio - condição transitória. falemos um pouco sobre o silêncio. sobre o que falamos quando fazemos essa coisa paradoxal e contraditória que é falar sobre o silêncio? como é possível alguém falar sobre o silêncio? o silêncio é evidentemente um termo relacional, e se define por seu oposto: ausência de ruído, em geral, e de fala, quando nos referimos a seres humanos. os românticos usavam o termo na primeira acepção, quando celebravam a calma e a serenidade da natureza. e pascal falou no silêncio eterno do espaço infinito. em seu uso humano, a palavra pode significar coisas muito diferentes e ter causas muito diversas. nem todos os silêncios são sinistros. há o abençoado silêncio da televisão desligada. que nos permite a concentração, o recolhimento, a introspecção, o luxo monástico da meditação solitária ou a dois. há o silêncio da lealdade, de quem se recusa a divulgar o que lhe foi confiado por um amigo. há o silêncio do magistrado, quando um processo corre em segredo de justiça, ou do sacerdote, que não pode revelar segredos de confessionário. há o silêncio místico, que nos é inspirado pela contemplação do inefável, do que não pode ser articulado por lábios humanos. citação tão bem descrita por wittgenstein: "devemos silenciar sobre aquilo que não pode ser dito". mas há também silêncios menos amáveis, como o imposto pela repressão, nas ditaduras, ou o silêncio dos investigados, que se calam invocando um habeas corpus preventivo. entretanto vou limitar-me aqui a três destes silêncios. há o silêncio provocado pelo espanto, pelo susto diante do inesperado, do assustador, o silêncio que "faz perder a voz". há o silêncio terrível que vem do desprezo. fala-se muito em gargalhada homérica, a dos deuses do olimpo, há também um silêncio homérico, praticado nas regiões infernais. assim, no canto XI da odisséia, ulisses narra a viagem que fizera ao reino dos mortos, onde encontrou a sombra de ajax, que ele tinha em vida ofendido mortalmente. ulisses usou toda sua eloquência para obter o perdão de ajax, mas o herói refugiou-se altivamente no silêncio. aí diz ulisses: "assim falei eu, mas ele nada respondeu. foi para o erebo, unir-se às outras almas. e no entanto, apesar do seu rancor, ele bem poderia ter me falado, e ouvido". no livro VI da eneida, virgílio imita esse episódio da descida aos infernos e descreve o encontro de enéias com a alma de dido, que se suicidara depois que ele lhe abandonara. (era a rainha de cartago, né, há uma relação apaixonada entre os dois e num certo momento enéias acha que tem que continuar a cumprir o destino que lhe foi imposto pelos deuses e seguir viagem rumo à itália em direção à fundação de roma, e dido não aceita, não consegue superar o sofrimento provocado por esse abandono e mata-se). então enéias desce aos infernos para tentar obter o perdão de dido, tenta justificar-se, dizendo que deixara cartago por ordem dos deuses, mas dido permanece muda e inflexível. diz virgílio: "com suas palavras, e banhado em lágrimas, enéias quis acalmar a ira da rainha, mas ela, voltando seu rosto, e olhando para o chão, fica tão silenciosa quando ele tenta falar como se fosse uma pedra ou uma rocha. o romantismo retomou o tema do silêncio heróico. num dos poemas mais conhecidos de vigny, "a morte do lobo", o poeta diz que os homens deveriam imitar as feras, que desdenham lamentar-se no momento da morte. "só o silêncio é grande", diz o poema de vigny, "todo o resto é fraqueza". baudelaire volta ao inferno dos antigos (para dar outro exemplo do silêncio desdenhoso, o de dom juan): "ignorando os lamentos das amantes traídas e as maldições dos pais desonrados, o calmo herói dom juan, levado pela barca de caronte, não se digna dizer nada". esse portanto é o silêncio do desprezo. mas há também um terceiro silêncio que eu queria salientar, o silêncio dos omissos, das almas tidas e mornas de que falava dante. dos pusilânimes, dos que deveriam falar e se calam. dos que poderiam ter protestado contra o nazismo, impedindo o holocausto, e por não terem protestado a tempo, ajudaram a consolidar um regime em que todo protesto se tornou impossível. em todos esses exemplos o silêncio fala. essa fala pode ser decifrada: o bom silêncio fala da necessidade de preservar a vida interior contra a agressão dos decibéis, da lealdade entre amigos, do exercício responsável dos deveres inerentes a um cargo, do respeito diante do que ultrapassa qualquer verbalização. e o que dizem os outros tipos de silêncio? o silêncio motivado pelo susto (...). o silêncio provocado, motivado pelo susto é indício de pavor, ou de surpresa diante de um acontecimento inteiramente imprevisível. o silêncio produzido pelo desprezo traduz uma atitude de negação radical do outro, de recusa do atributo humano por excelência: o direito à interlocução, e é indício de um estado de coisas ou de um comportamento que realmente merece esse desprezo. o silêncio dos omissos diz que o homem está fugindo de sua liberdade e das obrigações éticas que ela impõe. sim, todos estes silêncios falam."




Trecho retirado em palestra de sérgio paulo rouanet; seminário em 2005 no Rio de Janeiro.

sábado, 17 de julho de 2010

Chuva Interior - Mario Chamie

Quando saia de casa
percebeu que a chuva
soletrava
uma palavra sem nexo
na pedra da calçada.

Não percebeu
que percebia
que a chuva que chovia
não chovia
na rua por onde
andava.

Era a chuva
que trazia
de dentro de sua casa;
era a chuva
que molhava
o seu silêncio
molhado
na pedra que carregava.

Um silêncio
feito mina,
explosivo sem palavra,
quase um fio de conversa
no seu nexo de rotina
em cada esquina
que dobrava.

Fora de casa,
seco na calçada,
percebeu que percebia
no auge de sua raiva
que a chuva não mais chovia
nas águas que imaginava.

— Mario Chamie

quinta-feira, 24 de junho de 2010

TAVA NOUTRA PAG.

Um sopro que move os cabelos, trazendo a tona o que deveria ser aprendido;
As reminiscências que provocam o silêncio, no momento oportuno;
O assunto que melhor conheço, sempre que perco o juízo;
O reconhecimento do letal fracasso, sempre que deparo com o impossível;
O som alto, daquilo que em todas as alvoradas silencio;
Uma explosão em rosas, onde sobram aos demais apenas os espinhos;
Um disparate aos olhos atentos, dos que buscam entendimento;
Portadora daquilo que ficou preso, a esperança do absurdo.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Manifesto apaixonado...

Obs: Como as palavras são manifestações de nossos sentimentos e sensações do exato momento, não saberei dizer se o redigi em 13 ou 14/05, pois o 13 ainda não havia findado, uma vez que trago comigo o turbilhão de emoções deste dia e dos anteriores a ele, mas na cronologia insensível já havia passado das 00h00 e acabara de despontar no céu paulistano o tal 14/05...entretanto...rs..

Estou apaixonada; nem por mim, nem por ninguém, mas por todos;
todos os que passam, passaram e por ventura passarão;
pelo todo, por tudo, pela vida;
pela dor, pela "misturança",
pelos sorrisos das ruas e dos ônibus frios e ensolarados;
pela indiferença do diferente e,
pelas diferenças indo em frente;
pelas angústias e incertezas,
certas e recorrentes,
das correntes dos homens coerentes,
pelo medo manifestado e expresso em forma
de flor;
pelo desabafo, desembaraçado que só,
não mais pertence a ninguém,
mas a todos os presentes,
aplausos vazios e uníssonos,
nas cançõs mudas,
pelas rugas e brancos, e ninguém,
mas por todos,
paixão latente...

domingo, 9 de maio de 2010

Há quem diga!

Há quem diga que o tempo não volta, tô longe de querer provar que materialmente este retorna. Não, dentro das limitações do ser, não seria possível, a não ser se houvesse uma mudança radical no conceito. Porém, o tempo volta dentro das recordações.
As pessoas, lugares, coisas, situações passam, mas os sentimentos sempre nos conduzem ao momento certo aonde paramos.
Forçoso é acreditar que neste mundo, aonde nada nos separa, apenas nós mesmos, jamais nos reencontraremos. A aurora do dia, por meio de um elogio me reconduziu a  reviver um "amor de tantas rugas", ao menos relembrá-lo, com muito carinho. Penso que nada justificaria tamanha distância que estes ventos do tempo fizeram lançar esta flor do meu jardim ônirico. Já que como sempre estou presa ao mesmo lugar, vivendo as mesmas coisas de maneiras diferentes, com arvores distintas, mas no mesmo lugar!
Estamos sempre querendo saber quem está por trás do aço do espelho. Afinal a ansiedade dos que vivem nas grandes metrópoles é tão frenético e constante quanto as buzinas, faróis e barulho dos passos nas ruas.
Há quem diga que as pessoas passam, assim como o tempo do relógio, só que elas ficam, e ainda tentam nos pregar peças, tendo uma má interpretação do outro. Tenho muito carinho por todos que passaram, e ainda estão passando, para poderem continuar sua caminhada, mas assim como na música "meus bons amigos ondde estão notícias de todos quero saber".
Tô certa?
Ademais...rs...merci!

sábado, 3 de abril de 2010

Lembrancinhas

Há tanto que não escrevo, e deixo aqui apenas misturas de confissões e reminiscências. Porém, com doses muito maiores de confissões, uma vez que o calar presencial é mais confortável.
Havia uma muringa cheia da presença, que por vezes distante, e mais figurativa do que o real me premitia enxergar, já que o ônirico confortável me pregava peças como estas. O real pediu licença para se manifestar, e mostrar que não há apenas desfigrações em sua existência. Desde então, no lugar dos leves personagens sem densidade, que tomavam conta da muringa que prestes a transbordar estava, e não movia-se por carregar tamanho peso, ocupou-se de vazio, pelo finitude do filme q acabara por registrar a última cena. O filme virou negativo, e as fotos nem ao menos foram ampliadas, mas já estão em belo arquivo, aguardando seu lugar nas próximas representações e exemplos no real.
A muringa ficou vazia, e com isso passar a ocupar outros espaços, desta forma outras reminiscências tomam corpo. Como a canção de Geraldo Vandré que papai cantava; e eu quando pequena nem sabendo de todo significado que continha repetia com ele "vem vamos embora que esperar não é saber, quem sabe faz a hora não espera acontecer". Quem dera ter realmente aprendido todo o significado, ou mesmo realizado apenas o que ele queria me ensinar.
Esperei, pensei, esperei e repensei; a atitude mesmo veio depois, mas veio, e antes tarde que nunca, mas nunca seria muito, ou pouco, já que não se pode medir o que se é, tendo apenas a certeza do transitório, deste mundo para outro, desta paixão para outra, e de tantas outras coisas para outras...mas, restando sempre o amor, porque este não transita, fica marcado pelo resto da vida, seja ela mais um dia, ou mais cem anos...

Ps. Este texto faz parte da campanha: "O que importa mesmo é a mensagem". Então, desculpem os mais antenados em gramática.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Vagão.

Penso que se nada fizesse, estaria sendo mais honesta comigo, meus sentimentos... Afinal, já não sou tomada pelo ímpeto da realização material humana.
A palavrinha "material humana", é somente para demonstrar certa consciência de algo abstrato e instigante. Porém, a linha que diferencia o que é material do abstrato dentro de nossa cabeça, é por demais tênue. Separar o que é palpável daquilo que nos é permitido experimentar apenas por meio de sensações, abre uma brecha para contestar a honestidade das primeiras afirmações.
Realizo única e exclusivamente pequenos sonhos que nem são dignos de frios descompassados nos interior do corpo. Tudo tão solto, feito sapato largo, aqueles que afrouxam após anos de uso, e você nem sabe o motivo de não substituí-los por novos, e ainda usa o conforto como desculpa para a insanidade.
Nem é uma tentativa de retratar algo triste ou melancólico, mas sim um grito desesperado em papel e tinta para ver se o universo joga algo escrito da mesma forma, porém com cara de explicação ou exemplo do mesmo, para surtir o efeito confortante e conformado do tipo: Tá todo mundo no mesmo vagão!!!!

(...) confissões

(...)confusões

(...)reminiscências

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Gabriel García Marquez

Como pode em poucas linhas definir tão profundo sentimento? Na verdade é um sentimento estranho, saber que há pessoas que sentem e pensam exatamente como você. Alguém pode me explicar isso?
Essa é a beleza da arte: Fazer com que os seres se aproximem e não se sintam tão sós em meio ao imenso vazio da existência, das interragações recorrentes: De onde sou? Por que estou aqui? Para onde vou? Por que estas pessoas? e tantas outras que vão surgindo...ai vazio! Dentre outras definições também, pois a arte não poderia se limitar a tão breve explicação.

Vamos lá:
"Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem de minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do Zodíaco."


(Memórias de Minhas Putas Tristes - Pg. 74)

sábado, 23 de janeiro de 2010

Grilos!

Ando muito vazia para escrever!
A verdade é que estou cheia de mudanças e das mesmas. Tantas mudanças provocam perca de referência no sujeito.
Certo que a sensibilidade faz visitas breves e constantes. Mas...
A música é de Erasmo e Roberto Carlos, belíssima na voz de Marina Machado.
É isso aí! Sem muita filosofia existencialista para não pirar.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

2010 me avisou!

Pois é 2009, você me prometeu ser muito melhor que 2008, e foi. Agora, 2010 veio me visitar e disse que tudo que amarguei ao seu lado certamente não amargarei com ele.
Obrigada por tê-lo me apresentado. Espero que não fique com ciúmes, afinal esse é um dos sentimentos mais medíocres de nós, né?!
Bem vindo, novo amigo!

Ando devagar - Almir Sater

Ando devagar porque já tive pressa,
E levo esse sorriso, porque já chorei demais,
Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe,
Só levo a certeza de que muito pouco eu sei, ou
Nada sei, conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs.
É preciso amor pra puder pulsar, é preciso paz
Pra poder sorrir, é preciso a chuva para florir.

Penso que cumprir a vida, seja simplesmente
Compreender a marcha, ir tocando em frente,
Como um velho boiadeiro, levando a boiada
Eu vou tocando os dias pela longa estrada, eu vou,
Estrada eu sou, conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maças,
É preciso amor pra puder pussar, é preciso paz
Pra poder sorrir, é preciso a chuva para florir

Todo mundo ama um dia, todo mundo chora,
Um dia a gente chega, no outro vai embora,
Cada um de nos compõe a sua história, cada ser em si
Carrega o dom de ser capaz, e ser feliz,
conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maças,
É preciso amor pra puder pussar, é preciso paz
Pra poder sorrir, é preciso a chuva para florir

Ando devagar porque já tive pressa,
E levo esse sorriso, porque já chorei de mais,
Cada um de nos compõe a sua história, cada ser em si
Carrega o dom de ser capaz, e ser feliz

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Liberdade...

Liberdade]... "...Sem ela, a bem dizer, não há solução definitiva. Logo compreendi isso. Antigamente, só tinha liberdade na boca. No café da manhã, eu a passava nas minhas torradas, mastigava-a durante todo o dia, levava ao mundo um hálito deliciosamente refrescado pela liberdade. Eu atirava essa palavra-mestra a quem quer que me contradissesse, tinha-a colocado a serviço dos meus desejos e do meu poder. Murmurava-a na cama, ao ouvido adormecido das minhas companheiras, e era com a sua ajuda que eu me descatava delas. Eu a deixa escorregar...Oh!, eu me excito e perco a noçao de dimensão. Afinal, aconteceu de eu fazer da liberdade um uso mais desinteressado e até mesmo, avalie a minha ingenuidade, defendê-la duas ou três vezes, sem chegar, é bem verdade, a morrer por ela, mas correndo alguns riscos. É preciso me perdorar essas imprudências; eu não sabia o que estava fazendo. Não sabia que a liberdade não é uma recompensa, nem uma condecoração que comemora com champanha. Nem, aliás, um presente, uma caixa de chocolates de dar água na boca. Oh, não, é um encargo, pelo contrário, e uma corrida de fundo bem solitária, bem extenuante. Nada de champanha, nada de amigos que ergam a taça, olhando-nos com ternura. Sozinhos numa sala sombria, sozinhos no banco dos réus, perante os juízes, e sozinhos para decidir, perante nós mesmos ou perante o julgamento dos outros. No final de toda liberdade, há uma sentença; eis por que a liberdade é pesada demais, sobretudo quando se sofre de febre, ou nos sentimos mal, ou não amamos ninguém." Albert Camus, A Queda.




domingo, 13 de dezembro de 2009

Espelhos



Belo Botânico, inspirador de grandes artitas, com seus belos espelhos e ninfas; lugar onde as dores se despejam e os olhares florescem como as belas espécies de plantas que lá residem e resolvem nos presentear na primevera com belo show de luzes e cores.
Talvez esta não tenha sido a mais bela impressão que tive do lago principal do botânico, porém faz parte de um trabalho que gostaria de desenvolver no presente momento. A foto é algo de um passado que presente fica em memória, e somente neste momento presente lhe carrego de sentido.
O sentido não poderia ser o mesmo de dois anos atrás quando presenciei tal espetáculo, porém com algumas informações a respeito de arte (graças as aulas do Brolezzi) essa foto imprime outras sensibilidades.
Me transfere, de maneira muito humilde (claro) aos quadros do Sr. Monet. Este dedicava-se a registrar não o objeto, mas as impressões retidas; dos espetáculos de luzes e cores; do mundo novo; da literatura de jornal; do tempo presente.
Surge então uma questão: será que há verdade no que vemos? Ou, o que existe são nossas verdades particulares e viciadas?
Pode ser que ao enxergarmos algo, não o enxerguemos em sua totalidade, apenas vemos uma fração da história. Entre nossos olhos e os objetos há fumaça, poeira, luz, sombra e tantas outras cores que nossas retinas não conseguem absorver, por sermos limitados.
Sim, somos limitados e vemos apenas aquilo que queremos. De preferência algo muito rápido, impressões efêmeras de um mundo que não pára um instante e não nos permite passar muito a contemplar ao redor.
Iluminados ficam apenas os pequenos detalhes do menos obscuro, do mesmo, de nossas vontades e conhecimento, todo o resto nos causa medo e repulsa.
Repudiar o estranho não é algo que se admita assim, com facilidade...claro, o orgulho é nosso sobrenome, uma vez que o medo é primeiro, aquele que se apresenta mesmo de maneira tímida, já que o sobrenome é o mais importante. Oras, ele é a herança de nosso tempo, de nosso familiares, reflete de onde partimos e define nosso estado presente.
Admito hoje com menos orgulho meu medo e com mais otimismo minha corvardia. Talvez sejam as versões que vejo no espelho.
No espelho vejo apenas a sombra de algo que não é. Desencano das olheiras, mas percebo as marcas que expressam cada vez mais o que me preocupa, e mesmo os olhares dispensados a outros.
Vejo que algo poderia ser mudado, mas cansa. Cansa pensar e tentar...
Carrego, como objeto de sorte, a mais bela certeza que não serei a única neste mundão a ver que não se vê tudo, e mais: não perdemos quando encaramos apenas uma parte do todo, muito pelo contrário, tornamos menos complexo, afinal todo momento pode ser sentido nos espassados e parcos instantes da vida.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Violas de Bronze


Dia 27/11, bela sexta, chuvosa e caótica paulistana, me despenquei até o belo auditório ibirapuera para ter o prazer em ser invadida pela bela arte. Sim, acredito que arte, grosso modo, seja tudo que consiga lhe tomar de emoção e naquele instante o remeta ao que atribui a expressão, seja plástica, musical e tantas outras manifestações, a intenção do autor, ou mesmo a um momento de seu passado-presente.
Siba e Roberto Corrêa, com seu fantástico trabalho, "Violas de Bronze", conseguiram, mais uma vez, marejar meus olhos. Digo mais uma vez porque tantas outras já fizeram desde que tive contato com o trabalho. Um som leve feito brisa do mar, que move os cabelos, foi assim que senti a música, porém a brisa moveu os véus do coração. A poeira sacudiu e sai de lá mais feliz.
Se pudesse aquele auditório estaria apinhado de gente...mas estava, concorrido, e as belas emoções pairando...
ahh, é isso aí! rs...poderei dizer mais o que? Nada! Afinal, não é todo dia que saímos de um show tomados pela emoção e felizes por saber que há tantas pessoas no mundo acreditando na beleza da existência humana, como eles em seus versos e arranjos de cordas.

Quem quiser conhecer um pouco mais:

sábado, 21 de novembro de 2009

No calar das sobras que mostra seu silêcio inaudito, inexistente. Onde gritam as vozes do interior dos sonhos, da vazão do sublime, da razão dos homens posta em prova. Tudo que se sente são abstrações, tão claras que no instante pensamos poder explicar com a linguagem comum. Não há liguagem capaz de definir como um ser de frente ao horizonte do oceano, com toda sua imensidão de luz e vastidão fazem o homem sentir-se por um breve instante aconchegado e feliz. Em meio a tanto sal e água limpa das varreduras que faz em seu corpo e mente, e mesmo quando mente se descobre mentindo e é feliz por conseguir definir o que se mente. Porém, não consegue com junções simples, das primeiras formações, ser livre e expressar o quanto se quer ser liberto e acompanhado. Acompanhado por si mesmo na plenitude de sua existência, sem medo. Quando limpa mais um pouco descobre que os muros imensos são medos, e estes medos o tolhem a liberdade. E quando limpa mais um pouco descobre que sua liberdade vive na gaiola. Nem entende a tão almejada pois não sabe bem o que é. E assim, de limpezas vai se conhecendo e nos outros reconhecendo o que se é.
Pensa que assim que descobrir o que se é será capaz de descobrir o que se quer. Ignora o implicito, pois se busca saber quem se é já sabe ao menos o que se quer, quer ser autêntico, mais alegre e sorridente. Sem o fardo da mentira, dos sorrisos amarelados e das conversas onde apenas o corpo está presente.
Talvez um dia, quem sabe ser como descrevem Os Novos Baianos em O Mistério do Planeta:

Mistério do Planeta
Os Novos Baianos
Composição: Galvão - Moraes Moreira

Vou mostrando como sou
E vou sendo como posso,
Jogando meu corpo no mundo,
Andando por todos os cantos
E pela lei natural dos encontros
Eu deixo e recebo um tanto
E passo aos olhos nus
Ou vestidos de lunetas,
Passado, presente,
Participo sendo o mistério do planeta
O tríplice mistério do "stop"
Que eu passo por e sendo ele
No que fica em cada um,
No que sigo o meu caminho
E no ar que fez e assistiu
Abra um parênteses, não esqueça
Que independente disso
Eu não passo de um malandro,
De um moleque do brasil
Que peço e dou esmolas,
Mas ando e penso sempre com mais de um,
Por isso ninguém vê minha sacola

Sem escravismo de (des)envolvimento!

domingo, 8 de novembro de 2009

breve diálogo reticente...

Ao se encontrarem tempos depois eles:

le chéri: Olá, como estás?

la passionnée: bem, e você? O que tem feito?

le chéri: Ah, estou muito bem. Muitos amores me cercam, todos repletos de tanta sinceridade, algo especial.

la passionnée: Que bom, isso muito me alegra! Quais são estes amores com sabor tão especial?

le chéri: Ah, sei lá, me constrange falar-lhe acerca de certos assuntos, afinal me permiti pertencer-lhe ao menos por alguns dias, esporáricos, mas pertenci.

la passionnée: Sim, entendo. Acredite, nada me ocorrerá. De uns tempos prá cá, tenho estado em um estado de coisas muito diferente. Mas lhe constranger não me agrada.

le chéri: ...?...

la passionnée: Mon Chéri, não me agrada também. É exatamente pelo fato d'eu ter pertencido a ti apenas por quartos de dias esporádicos. Ao tempo em que me pertencestes apenas no decorrer de algumas horas, lhe pertenci por muito mais tempo que imagina. Agora tenho apenas o desejo em ver-lhe feliz e tão menos confuso como antes.

le chéri: Nos pertencemos por apenas horas e não mais a um que a outro. Não me recordo de tempos onde expressou-me que as horas (como prefere) tenham sido mais do que isso e chegado a serem dias seguidos.

la passionée: Sim, pois muitas foram as palavras que usamos para expressar o que queríamos e poucos foram os momentos que nos entendemos. Aliás as muitas foram poucas, assim como as poucas horas. Portanto por meio da pouca falta de jeito nos limitamos a falar pouco... Mas sim, você disse que não se recorda de tempos em que lhe expressei o passar das horas, dias e até afirmaria aqui meses, em que preso esteve em meus pensamentos. Sinto, sinto muito, mas acho que lhe estragaria o gosto doce e fresco da felicidade, então saiba apenas que lhe amo, assim, como humano que és.

le chéri: Está certo! Não saberia mesmo lhe dizer nada de acolhedor. Assim manteremos nossa polidez estética.

la passionnée: Polidez estética é nossa pior qualidade. A qualidade dos que muito pouco revelam ao mundo, se apegando ao que vivem no onírico. E com isso somos felizes pela metade.

le chéri: Sim, sim...tenho que ir, vou a uma festa. E você, vai ficar por aqui para ver o resto?

la passionée: Não, estou indo. Boa festa!

le chéri: Ah, vamos juntos, assim lhe apresento minhas felicidades.

la passionée: Vamos sim, estou livre das reticências das horas passadas.

le chéri: Que bom! Vamos, porque você me deixou algumas reticências neste último quarto de hora.

la passionée: ...rs


Ao fundo do diálogo tocava uma música do Cartola, em um destes butecos da avenida São João.

Minha - Cartola

Minha
Quem disse que ela foi minha
Se fosse seria a rainha
Que sempre vinha
Aos sonhos meus

Minha
Ela não foi um só instante
como mentiam as cartomantes
como eram falsas as bolas de cristal

Minha
Repete agora esta cigana
Lembrando fatos envelhecidos
que já não ferem mais os meus ouvidos

* A música foi add em 09/11

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Hoje é o dia de Santo Reis





Esse menino fofo, que fotografei em 200...e alguma coisa que não lembro. A gente vai envelhecendo e esquecendo as datas, tudo bem! Estava no interior de São Paulo, andando de bicicleta, coisa que não se faz na selva de pedra, e por ventura, estava acontecendo em uma casa a celebração da Folia de Reis. Assim que vi a aglomeração de pessoas fui correndo prá ver (coisa de gente criada em cidade cinza...rs). Fiquei impressionada com a quantidade de cores, a beleza, sutileza, maestria e respeito destas pessoas na referida festividade.
Infelizmente esta foi a única foto que sobrou deste dia...
A lembrança sempre esteve presente, mas no momento em que encontrei a foto, outro passado mais detalhado e descritivo surgiu.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

The best thing you ever had has gone away - Radiohead - High and Dry

...no começo era apenas uma boa lembrança, aquelas que vem a mente com um largo sorriso nos lábios. Tinha prazer em sentir saudade de alguém, há tempos permanecia em breves e espassados relacionamentos, tão efêmeros quanto meus cigarros diários.
Com o passar do tempo, sua presença passa a ser constante, sonhos, as tais "boas lembranças" e até mesmo nos meios de comunicação. Claro, tudo isso foi acontecendo aos poucos e sou responsável por boa parte disso, afinal me permiti ir até aonde desse, não tenho nada a perder mesmo. Ao menos era assim que pensava.
Diminuimos o fosso físico, mas não estreitamos a relação. Permanecemos desconhecidos, mas com alguma intimidade. É assim que o vejo hoje.
A saudade só aumentou...com o passar dos dias, sentia mais e mais sua falta, achava o tempo todo que o encontraria em meu caminho, passava os dias a olhar nas ruas para ver se via seu sorriso, sua voz, sua presença distante. Entretanto não paramos por aí. Estreitamos mais ainda os laços e desde então sinto mais frio, menos fome, menos paz, mais enfermidades estranhas, e uma dor estranha. Isso apenas no que posso perceber, há muito mais no campo das ideias ocultas que não saberia definir.
A caminho de escrever essas palavras soltas, li um poema do Neruda num destes sites de frases, poxa, nem sei o nome do poema mas fiz uma ligação direta com o que queria expressar...e lá vai! Com vocês:


Pablo Neruda

(...)Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

As pessoas morrem e sentimos a dor da ausênsia, só que a vida continua, abrimimos os olhos todos os dias e isso é a constatação do ser que vivo, apenas por mera coincidência, segue seus dias nas buscas de felicidade com gosto de passado, presente da vida que vira e mexe se mexe e transforma a caminhada.